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Introdução sobre a literatura negra Herasmo Braga |
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No livro Teoria da Literatura de René Wellek e Austin Warren destaca que uma das maneiras de se realizar uma análise literária, seria partindo dos elementos os quais a individualizam em relação às outras obras, ou seja, o objeto de estudo só terá valor no tocante aos aspectos da sua individualidade, com feições e qualidades próprias que a tornam distinta. Assim, em se tratando de uma abordagem sobre uma literatura tida como negra, a proposta terá sua relevância quando se tratar de observar os aspectos que a individualizam, como afirma Roger Bastide: “(...) seria um erro acreditar que não existe uma poesia afro-brasileira com seus traços próprios, seus sinais distintos e suas descobertas líricas. (Bernd,1987: 14)”
No entanto, deve-se ter cautela ao partir para analise considerando o aspecto “individual”, pois não se pode acentuar tanto na individualidade porque, então, estaríamos assumindo uma posição ingênua em considerar uma obra de arte inteiramente única, desprovida de qualquer condição de intertextualidade, como adverte Barkhtin no livro a poética de Dostoievisk, e mesmo, se assim, fosse possível, talvez estivéssemos diante de uma produção completamente incompreensível.
Nesse sentido é importante destacar que quando nos referimos a uma “literatura negra” estamos nos alicerçando em uma escrita sobre o negro produzido por ele próprio que podemos conceber das seguintes maneiras:
No seu sentido amplo: Feita por quem quer que seja, desde que reveladora de dimensões específicas da condição do negro ou dos descendentes de negros, enquanto grupo étnico culturalmente singularizado. (Bernd, 1992:07).
E no restrito consistiria em uma arte literária: (...) feita por negros ou descendentes assumidos de negros (...) reveladora de visões de mundo, de ideologias e de modos de realizações que, por força de condições atávicas, sociais e históricas, se caracterizam por uma certa especificidade, ligada a um intuito claro de singularidade cultural. (Bernd, 1992:07).
Em relação ao processo de formação histórica do que denominamos de Literatura Negra, em nível, nacional surgiu no século 18 e teve como maior expressão Domingos Caldas Barbosa, Cruz e Sousa, Luiz Gama, Lima Barreto, Lino Guedes e Solano Trindade.E durante as décadas de 1950 e 1960 teve uma retomada com Oswaldo de Camargo e Eduardo de Oliveira. A Literatura Negra no Brasil, pós década de 50 foi influenciada pelo Movimento de Renascimento Negro (Harlem Renaissance), surgido nos Estada Unidos, nas décadas de 1920 e 1940 e pelo Movimento da Negritude (Negritúde), surgido em Paris na década de 1930. Sendo esses movimentos de cunho reivindicatório e que lutavam pelo respeito e igualdade.Assim, o Movimento da Negritude constituiu-se por ser uma luta de estudantes negros das Antilhas e África, dos quais muitos produziram grandes obras literárias negras de expressão francesa, retratando a identidade negra africana, como também, realizavam protestos contra a ordem colonial vigente. (Carrnaça: 2003)
Percebe-se então que tanto no Brasil, como na França e nos Estados Unidos à literatura negra não está desvencilhada da ideologia do Movimento Negro e sob sua inspiração ganharia uma nova consciência política, voltando-se para a “reafricanização” durante a década de 70. Neste sentido, segundo Carrança (2003), o Movimento de Negritude, que tardou chegar ao Brasil, veio misturado com os discursos de Lumunga, Black Panter, Luther King, Malcon X, Ângela Davis e das Guerras de Independência das colônias portuguesas, no qual passariam a exercer forte influência na produção literária, atuando de forma denunciadora de sua condição no Brasil, de maneira valorativa, afirmativa do mundo e das “coisas do negro”.
Assim, a literatura negra serviu/serve como instrumento de engajamento diante das mazelas impostas socialmente dos quais se evidenciavam na descaracterização da figura do negro de sua humanidade, desconsiderando-o também, em seus aspectos culturais e na sua autonomia enquanto sujeito histórico.
Diante destes questionamentos históricos e culturais é interessante observarmos o fato de conhecermos poucos autores negros inseridos no cânone literário brasileiro. E isto sem fazermos qualquer alusão ao fator epidérmico, mas dentro dos parâmetros de uma produção de qualidade estética e de conteúdos relacionados: a sua história, a sua cultura e ao seu ser individual-universal. Luiz Gama é um exemplo desta “incompreensão”, pois não há a devida valorização da sua obra Primeiras Trovas Burlescas, publicada pela primeira vez em 1859, contendo poemas satíricos de grande envergadura poética e intelectual digna de reconhecimento, mas que, no entanto, encontra-se sob a égide do esquecimento e à margem da literatura nacional.
Antonio Candido aponta como fator essencial a garantir a especificidade de uma literatura negra, a sua força transgressora, destacando a obra de Luiz Gama, o primeiro autor negro a ir – no período escravista -na contramão de uma literatura predominante elitizada (de valores excludente e por vezes preconceituosa). Pois o autor realiza em suas abordagens o “troçar do branco” como no poema Quem sou eu? Em que ele reverte o sentido pejorativo da palavra bode usada pelos brancos com a intenção de ofender o negro, agora, atribuindo-a ao branco com grande ironia e humor. Quem
sou eu? (...) Sou negro sou, ou sou bode Pouco importa. O que isto pode? Bodes há de toda a casta, Pois que a espécie é muito vasta... Há cinzentos, há rajados, Baios, pampas e malhados, Bodes negros, bodes brancos E, sejamos todos francos, Uns plebeus, e outros nobres, Bodes ricos, bodes pobres, Bodes sábios, importante, E também alguns tratantes... Aqui, nesta boa terra Marram todos, tudo berra; Nobres Condes e Duquesas, Ricas Damas e Marquesas, Deputados, senadores, Gentis-homens, vendedores; Belas Damas emproadas, De nobreza empantufadas; Repimpados principotes, (...) É interessante mencionarmos que quando se procurar estudar os aspectos de uma literatura negra, devemos fugir das abordagens reducionistas e superficiais de cunho sociológico que levam em conta, apenas o paradigma da resistência, desconsiderando, assim, os outros recursos estilísticos e culturais predominantes em inúmeras obras dos quais também trabalham com questões metafísicas, religiosas, eróticas entre outros; como exemplifica Cuti:
“Quando se discute a legitimidade da expressão da Poesia Negra, tem-se costumeiramente apontado para aspectos relacionados ao combate contra o racismo e a miséria. Esquece-se, contudo, que miséria significa também ausência de prazer incluindo aqui o sexual. (Cuti, 2001:227)”. Acrescenta ainda Zilá Bernd, que devemos recorrer a outros elementos como: a) a existência de uma articulação entre textos dada por um certo modo negro de ver e sentir o mundo; b) a utilização de uma linguagem marcada tanto ao nível de vocabulário quanto dos símbolos usados pelo empenho em resgatar uma memória negra esquecida. (Bernd, 1987:18). Nesse sentido, observa-se também que a literatura negra não se constitui apenas no discurso da gratuidade, ou da realização, única, da estética, mas ela é constituída na busca da expressão de uma consciência social do negro.
E um dos elementos responsáveis que podemos recorrer para orientação na caracterização em um país multi-étnico e pluricultural como o Brasil, aspectos de uma literatura negra, seria através dos elementos que buscam reconstruir uma identidade negra na qual não se valida apenas pela: “(...) utilização de uma temática negra (o negro como objeto), nem a cor da pele do escritor (critério epidérmico), (...), mas a emergência de um eu-enunciador que se assume como negro no discurso literário.” (Bernd, 1992:13)
Pois é nesse aspecto do eu-enunciador, se constitui o indivíduo que se assume como sujeito (d)enunciador de sua condição, na tomada de uma consciência em que abandona a sua condição de ser observado (objeto da história) para a de observador (sujeito da própria história), redescobrindo e redefinindo sua identidade de negro. Referência
Bibliográfica: BERND,
Zilá. Introdução à Literatura Negra. Leituras Afins. Brasília:
Brasiliense, 1988. _______(org.).
Poesia Negra Brasileira: antologia. Porto Alegre: AGE:IEL:IGEL,
1992. CARRANÇA,
Flávio. Breve História
da Literatura Negra. In: Problemas Brasileiros. Dezembro de 2003. FONSECA,
Maria Nazareth Soares.(org.) Brasil Afro-brasileiro. 2ª ed. Belo
Horizonte: Autêntica, 2001. GAMA, Luiz. Primeira Trovas Burlescas e outros poemas.São Paulo: Martins Fontes, 2000. Textos
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