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19 de junho, Chico Buarque faz 60 anos Aquiles Rique Reis |
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Uma
vida dedicada à arte de nos mostrar que o mundo não é tão árido
quanto faz crer o nosso dia-a-dia às vezes insosso. Arte a mostrar que
existe lirismo e solidariedade no Brasil, sim, e que ele, o Chico, está aí
mesmo para atestar esta doce verdade. Convidados
pelo professor Rinaldo de Fernandes, dezenas de nomes das artes
brasileiras, incluso o titular desta coluna, revelaram das formas literárias
mais diversas suas opiniões e impressões sobre a obra múltipla daquele
que, como se tudo o que faz não bastasse, ainda é o maior centro-avante
da história do Politheama Futebol Clube, time em que acumula as funções
de atleta, técnico e cartola tão supremo, quanto único. Recém-lançado
pela Editora Garamond e Edições Biblioteca Nacional, “Chico Buarque do
Brasil”, organizado por Rinaldo de Fernandes, é um belo livro a serviço
de acalentar a carinhosa alma brasileira que cultua seus ídolos sem no
entanto dar a entender o quanto se derrete em lágrimas orgulhosas ao fazê-lo. Não
sei o que foi dito pelo organizador do livro aos outros autores que
escreveram para o Buarque sessentão, mas Rinaldo de Fernandes a mim
perguntou: “Quem é para você o artista Chico Buarque de Holanda?” “Ora,
me perguntas quem é Chico Buarque, o artista!? Direi de supetão, já que
queres a resposta à vista: fantasista de truz é o que ele é. Homem que
come luz, credo-em-cruz! O cara é bem mais que humanista, ele é
estrategista a viver, simbolista, sua missão idealista. Irrealista,
tu fazes-me a pergunta e ainda de mim esperas resposta?! Pois eu digo e não
desdigo: numa bolsa de aposta ele que, de um milhão a um segundo, já no
segundo e seguinte segundo, vale mais de um quatrilhão. Sem afetação,
longe de mim a bajulação. Pois
é, Tamandaré, levastes um passa-pé e a maré deu marcha à ré. E
aí veio ele junto à banda. Feito em roda de ciranda que
anda-que-anda e não desanda, agora vem ele ainda mais perfumoso de
lavanda, o de Hollanda. Pede só que o deixem na varanda com a vianda, a
sonhar com a moça se chacoalhando lá em Benguela, com o chocalho
farfalhando na canela. Feito
um menino, lá vai ele de cantiga em cantiga, a torcer para que o siga só
quem for mais forte que viga de pinho-de-riga que verga, verga e não
fadiga. Vento que gira o mundo. Rosa-dos-ventos que orienta o iracundo.
Roda que é viva no sonho fecundo. Rosa-de-bobo que fede feito o imundo
que ergueu a construção num microssegundo, para ela tombar e revelar o
submundo vagabundo desse furibundo mundo. Rita,
Carolina e Beatriz, e a quem mais Chico quis, transformou-as em lis e por
um triz não viraram cada uma sua rainha, pondo-se com ele a sonhar na
pracinha onde pousam as rolinhas e onde à noite caem centenas de mil
estrelinhas. Todas mais que as primeiras e todas damas estreladas da sua
Estação Primeira que é Mangueira. E se lembrem que foi pra lá que
subiu o piano. Piano que era do beltrano, mas tocava nele o sicrano,
aquele que acompanhava o soprano que achava profano meter-se a ufano com o
escorpiano que morreu ao bater no gelo-baiano antes de correr no
pan-americano, em pleno verano italiano. Recorro
neste momento a ti, nosso maestro Soberano. Tu que nunca me pareceste
insano, nem mesmo ao nadar no profundo oceano machadiano onde nenhum ser
humano cigano ou pós-diluviano ousou pisar ou teve para tal tutano,
revele a nós quem é Chico, o tal artista buarquiano”. “Sois de todo
louco, desista de tal intento, pois nem se fosses aqualouco mergulharias
no âmago do mago, esse detento das presas do encantamento”. “Ora,
ora, Rinaldo, e tu ainda vens e me perguntas quem é Chico Buarque, o
artista!?” Aquiles Rique Reis, músico e integrante do MPB4. |
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