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| estética
em debate
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Don Giovanni: a tragédia do humano Newton de Oliveira Lima
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A
ópera “Don Giovanni”, de Wolfgang Ammadeus Mozart, como criação de
arte, representa o que Otto Maria Carpeaux denomina de obra de arte
absoluta: contém em si a multiplicidade de significados, de expressões
de conteúdos que podem ser interpretados como completude de sua
possibilidade expressiva, vislumbrando-se as mais inusitadas interpretações.
A
crítica da forma e da linguajem musical da ópera pré-gluckiana(barroca)
empreendida por Mozart, com o desenvolvimento de uma temática textual
libertada do acompanhamento da orquestração, com o libreto, desenvolvido
por Lorenzo da Ponte, exprimindo uma linguajem independente, realmente trágica
ou cômica como se queira, como se pode exprimir em uma verdadeira música
de fundo simbólico e teatral
como deve ser a ópera. Assim,
do ponto de vista formal-musical, “Don Giovanni”(como posteriormente a
“Flauta Mágica”) representa a coroação do esforço mozartiano,
dentro da trilha lançada por Gluck, de realizar a reforma da ópera, separando-a em
definitivo do bel canto operístico de origem italiana. A
desenvoltura de “Don Giovanni”, de sua expressão lírica e tragicômica,
de seu estilo formal e seu conteúdo expressivo, resume e possibilita o
que seria a ópera no Século XIX: criação do romantismo operístico com
a influência que causou na ópera italiana. Pode-se
dizer que da “Flauta Mágica” procede a ópera alemã, e de ‘Don
Giovanni’ advém a ópera italiana no Século XIX. A influência que
Weber, Beethoven, Rossini, Verdi, Wagner, dentre outros, receberam do
“Mestre de Salzburg” foi marcante.
A
‘Flauta Mágica’, mais que “Don Giovanni”, representa os ideais
iluministas e maçônicos de Mozart , porém, o drama existencial de
“Don Giovanni” supera o daqueloutra ópera, e a partir dele é que
iniciamos a análise da significância, para Mozart, do que se entende por
espiritualidade. O
conteúdo do libreto da ópera encarna a vida de Don Juan de Silva,
proverbial e talvez lendário nobre e aventureiro espanhol que teria
seduzido milhares de mulheres por toda a Europa. Ora, a vida hedonista de
Don Juan aparentemente expressa a falta de sentido do personagem, mero
conquistador de mulheres sem maior interesse que os causos não muito
originais de experiências sexuais e amorosas. No
entanto, analisando-se do ponto de vista sociológico, a ópera reflete a
crítica da sociedade estamental pré-industrial, onde a nobreza detinha o
poder político e parcela do poder econômico e,
mesmo em decadência por sua crescente falta de
função social, ainda espoliava o campesinato e parte de uma casta
de servos que ainda restava- Leporelllo, o servo de Don Giovanni, é o
emblema do povo explorado e degradado em sua consciência pela servidão
incondicional ao amo. A
crítica social da espoliação, Mozart resolve com a colocação do
problema da efetividade da justiça: as damas Dona Elvira e Dona Ana,
auxiliadas pelo marido desta última, Don Otavio, empreendem um plano de
vingança contra Don Giovanni por este haver matado o Comendador, que
defendera a filha Ana da desonra contra ela assacada por Don Giovanni. O
plano da justiça ascendente sobre a individualidade pecadora reforça a
natureza dual da concepção da redimição dos pecados inserta na obra:
se por um lado Don Giovanni é punido no penúltimo ato da ópera com a
condenação ao inferno, ele sofre, assim, a justiça divina, que é a
conclusão do plano de justiça dos demais personagens contra ele, segundo
plano de desenvolvimento inserido na ópera. A
crítica da justiça humana é patente: somente a intervenção divina
pode ser a justa medida e eficaz punição contra Don Giovanni, que foge a
todas as tentativas de captura e punição empreendidas por Massetto, Don
Otavio, Dona Ana, enfim, os homens não vencem a astúcia do mais sagaz
dos humanos, Don Giovanni. Percebe-se
a centralidade da contraposição entre humanismo e transcendência
espiritual: somente esta última dá finalização ao empreendimento do
espírito subjetivo de por o mundo em ordem, de punir os maus e
recompensar os bons, somente a Justiça divina plenifica e completa a
humana, o que é expressão da incompletude humana em seu anseia por
completar-se no orbe espiritual, como assevera Max Horkheimer(in
‘’A nostalgia do Totalmente Outro”): “Nostalgia
de uma perfeita e consumada justiça. Esta jamais será realizada na história;
de fato, mesmo que uma sociedade melhor substituísse a atual desordem
social, jamais reparada a injustiça passada, nem eliminada a miséria da
natureza humana.” A
dramaticidade da penúltima cena, com o diálogo entre Don Juan e o
Comendador que volta para puni-lo, é a expressão da tragédia da existência
da subjetividade, e a proposta de perdão do Comendador para Don Giovanni
arrepender-se, seguida da recusa deste último, revelam que até o fim ele
foi o nobre perfeito: seguro de seus privilégios e de sua posição, não
havia dor de consciência em sua atitude, fez o que fez porque era um
dever e privilégio de sua condição, a de moldar a realidade a seu
talante; sentindo-se uma parte da natureza, não havia porque conceder pálio
à justiça divina: a consciência cristã de igualdade lhe era estranha. Assim,
Don Giovanni representa o humano por excelência, com todos os vícios,
defeitos e exacerbações a que a individualidade está sujeita,
encontra-se ele em contraposição ao divino, à moral, ao cristianismo.
Ele é a “desordem” e a “imperfeição”, imagem do homem e do
mundo tal qual eles são, em contraposição ao ideal de perfeição e de
ordem expressos religiosamente. Don
Giovanni é a individualidade criadora e próxima da natureza com sua
exuberância e concepção “aristocráticas” da vida, sua imagem é a
representação do “super-homem” nietzscheriano, com a possibilidade
de criar e destruir a realidade a seu talante, de recriar valores e
transformá-los em novos mediante sua objetividade inserta no “mundo
criativo” da instintividade e da emoção.
Don
Giovanni e sua individualidade - a individualidade de todos nós
superestimada, idealizada, a conotação exagerada, irracional e egoísta
da subjetividade. Aparentemente, somente isto se pode perceber das
atitudes do nobre espanhol sedutor de mais de mil mulheres. Aqui começa a
análise do significado da outra face de “Don Giovanni” que Mozart
buscava expressar, a face da valorização da personalidade e dos valores
“nobres” por sobre os “valores
plebeus”, concedendo um entendimento nietzscheriano à questão. Todavia,
Don Giovanni representa bem mais, representa a individualidade humana em
geral, a individualidade que quer se firmar a todo custo, contra a opressão,
contra a alienação, contra a falta de sentido do cotidiano, contra a
massificação da existência, a pré-determinação da vida em moldes
“mercadologicamente acabados”. Don
Giovanni, sua vida, sua ‘obra’, são um antídoto contra o cotidiano,
contra o tédio, mas acima de tudo representam a alegria espontânea de
viver, a despreocupação com os meios e os modos em prol da liberdade, em
função da existencialidade, do predomínio da busca de valores e
momentos novos e criativos, são a oposição radical à medianidade, à
mecanicidade e massificação; são o contraponto da falta de nobreza, de
ausência da largueza de espírito a que sociedade industrial relegou o
homem moderno. Analisado
por este ângulo, o fracasso de Don Giovanni é a representação do fim
da individualidade e a vitória da massificação. Quando Don Giovanni
canta a liberdade na cena
, ocorre uma diferenciação da liberdade cantada pelos
coadjuvantes da ópera na última cena, o que implica dizer que a
liberdade dos mesmos foi a conquista da liberdade da vivência e do
estabelecimento da igualdade, ao passo que a de Don Giovanni era a
liberdade ‘aristocrática da criação’, da vivência e criação de
valores, tal como apregoava Nietzsche. Aliás,
a formação iluminista de Mozart, expressas na glorificação da
liberdade na última cena, na instauração do “reino da justiça” após
a derrota de Don Giovanni, é a expressão do ideário racionalista o século
XVIII, de que o igualitarismo e da
justiça deveriam soprepujar a desigualdade, a injustiça e a aristocracia
até então reinantes. A
derrota de Don Giovanni é a imagem do fracasso do aristocratismo. Em última
análise, a espécie de “cristianismo iluminista” defendido por
Mozart, era a convocação(ou exaltação) da Era Contemporânea com o fim
da sociedade aristocrática e a propugnação da
sociedade igualitária, que culminou na sociedade democrática e
liberal pós-moderna. Em “Don Giovanni”, a representação patriarcal,
artística, nobre, da figura do protagonista está em todo o drama em
conflito com a tendência igualitarista, plebéia e anti-criativa dos
coadjuvantes. Fazendo
a comparação da díade Don Quixote/Sancho Pança e Don
Giovanni/Leporello, o que para os protagonistas eram valores positivos,
para os antagonistas, seus criados e companheiros das intermináveis
aventuras, eram valores negativos. Reside aqui a expressão do que
Nietzsche entende por oposição entre valores cristãos/plebeus e
aristocráticos/artísticos. Assim como Cervantes criticou e retratou o
fim do medievalismo em “Don Quixote”, Mozart representou em “Don
Giovanni” o fim da sociedade estamental. Dom
Quixote de la Mancha, com seu poderoso idealismo buscava superar o
realismo apático da existência cotidiana, do non sense efetivo da
vida massificada, que Sancho Pança queria vivenciar. Don Giovanni, com
sua ”imoralidade tremenda” procedia a uma “crítica fática” da
hipocrisia dos costumes humanos: sua sedução a Dona Elvira ferira o
orgulho de uma mulher possessiva que foi desprezada; sua sedução a Dona
Ana revelou que ela em realidade não amava o marido, o qual, no decorrer
de vários momentos da ópera, mostrou não amar, mesmo ele tendo
sacrificado-se por ela. A
verdadeira moral zomba da moral, disse Espinosa, e que moralidade é essa
que se aferra a pressupostos formais e exteriores, não resistindo a um
sedutor ? O que fica patente no confronto entre a moral cristã e o
hedonismo de Don Giovanni é que os bons não são tão bons assim, nem
que existe tanta pureza nas virtudes aparentes. Estaria
Nietzsche correto ? Mas
seriam realmente os valores cristãos plebeus e os valores aristocráticos
os efetivamente estéticos e verdadeiramente livres? É possível se
cogitar de liberdade artística frente aos dogmas da religião, ou de
liberdade de expressão ante à massificação da sociedade industrial ? Nesse
modesto espaço não se pode efetivamente responder a essas questões, mas
a crítica aos pressupostos liberais, iluministas, cristãos e
racionalistas de Mozart pode e deve se lastrar no vislumbramento de que a
sociedade moderna encontra-se cada vez mais massificada, que a criação
da existência e da arte encontram-se ameaçadas pela ausência do esprit
du creation, que outra coisa não é que o enfraquecimento da
individualidade, da substancialidade da vida espiritual, do esvaziamento
dos valores absolutos, do ‘’Espírito Absoluto’’(religião, moral
e arte) hegeliano. A
massificação não se refere somente à uma espiritualidade
transcendente, que efetivamente o racionalismo neutralizou, como bem
coloca Max Horkheimer(in ‘’A nostalgia do Totalmente Outro”),
mas da individualidade de existência, da percepção da vida por outro ângulo,
fora dos padrões de mecanicidade e utilitarismo que a sociedade
industrial relegou o homem moderno. Assim,
o homem moderno, devido à mecanização, está mais para máquina laboral
do que para sujeito criacional e existencial. Aqui, então, reside a
importância da ópera “Don Giovanni”: a apologia da liberdade de
existência, e, dentro da interpretação crítica que se pode fazer do
ideário mozartiano, o entrelaçamento das duas linhas da expressão da
liberdade humana: a linha criativa-aristocrática, e a linha cristã-essencialista,
que busca valores essenciais. Ora,
a interpenetração de ambas, propugna por uma vivência da
individualidade plena, que seja a expressão de um homem mais completo,
que não reflita o interesse de classe, nem uma forma específica de egoísmo,
nem de uma pura racionalidade individualista, mas que seja o homem plúrimo
da criação de valores com base em uma acepção a uma tempo essencial,
social e existencialista, que esteja além de um Don Giovanni para superar
o egoísmo e possa mais que um Leporello, suplantando a mediocridade e a
massificação. Abstraindo
do contexto social específico da sociedade estamental, e da negativa
simbolização hedonista e aristocrática em que Mozart situou Don
Giovanni, este representa um protesto do indivíduo contra a massa, da
liberdade de existência e de criação contra a mecanização da vida, e
porque não vislumbrar nele a figuração da Cultura como um fator de
contraposição ao tecnicismo e a limitação das possibilidades do homem
pós-moderno, para nele se vislumbrar um indivíduo autêntico, expressão
de protesto contra o fim da individualidade, tal como o “super-homem
cultural e estético” nietzscheriano, um ‘aristocrata da Cultura’
orteguiano ou um ”homem pensante” adorniano. “Don
Giovanni”, expressão da tragédia da humanidade em conflito intestino
pelo choque de valores, e da angústia pelo contato com o Transcendente,
é a tragédia do humano em sua inteireza, com a voz de Deus e dos homens
dialogando na busca do sentido da existência, da verdade do Ser, da
redimição final ou da perdição eterna. O fim da individualidade exprime-se a frase do Comendador, tempo non ai; sejamos como Don Giovanni : resistamos até o fim, para podermos morrer como homens, e não nos perdermos na mecanização infinita e auto-suficiente, que descarta os erros e os pecados humanos, demasiadamente humanos, requerendo apenas iguais máquinas de consumo e produção. Newton de Oliveira Lima é advogado, escritor e colunista deste site. Textos anteriores O espírito cristão no ocidente - jun 04 Realismo "versus" liberdade: as literaturas russa e inglesa em cotejo - fev 04 Campo de expressão de uma estética axiologicamente significativa - abr 04 |
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