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leituras dezembro 2003 |
Abertura às influências Wanderson Lima entrevista Lau Siqueira |
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Lau
Siqueira nasceu na fronteiriça Jaguarão, no Rio
Grande do Sul e reside há muito em João Pessoa. Possui dois livros
individuais publicados, ambos de poesia: “O Guardador de sorrisos”
(1998) e “Sem Meias Palavras" (2002). A entrevista que segue foi
nos concedida, por e-mail, em maio deste ano. Além de poeta, Lau é um
incansável divulgador de poesia e garimpeiro de bons poetas pouco
divulgados. Leminski,
Quintana, o Concretismo. São essas suas influências basilares? Sim, mas não
são as únicas. Sou radicalmente aberto às influências. Acrescentaria
ainda Cummings, Leila Míccolis, Alice Ruiz, Décio Pignatari, Pedro
Xisto, Mário Faustino, Carlos Nejar, Cacaso (mais que Leminski), Pessoa,
Bandeira, a poesia marginal, a ousadia anarco-dadaísta, Maiakovski,
enfim, todos os bons poetas que conheço e que possa ainda conhecer. Penso
que estar aberto a influências é um bom caminho para o encontro com uma
poesia original e sem algemas conceituais.
Entre
o seu primeiro livro (O Guardador de Risos) e o terceiro e por enquanto último
(Sem Meias Palavras), o que mudou em sua poética? Basicamente,
nada. Continuo fazendo a mesma poesia. Continuo arcando com as conseqüências
de estar aberto às experimentações mais radicais, à tradição, ao
aleatório, enfim... Em O Guardador de Sorrisos, dei uma ênfase maior às
influências especialmente da Poesia Concreta e Poesia Visual. Acho que
Sem meias Palavras é mais lírico, mas reafirma o minimalismo como uma
característica forte da minha poesia. Mas também está evidente a influência
do concretismo até mesmo no poema-título. Na verdade, O Guardador de
Sorrisos foi o meu primeiro livro individual, mas, em 93 teve “O Comício
das Veias”, em parceria com a contista Joana Belarmino. Acho que esse
foi um livro importante porque foi quando decretei minha coragem de
publicar. Até então, eu reivindicava somente a herança marginal e dava
preferência aos folhetos e fanzines como forma de divulgação. Um dia,
depois de receber um folheto meu (ele nem deve lembrar), Rubervan du
Nascimento me escreveu, dizendo que eu era um bom poeta, “mas precisava
trabalhar mais a palavra”. Isso faz uns 15 anos. Eu nunca mais esqueci
porque pela primeira vez levei a sério esta necessidade. Penso que esse
fato me ajudou muito. De lá para cá amadureci a minha convicção libertária
no trato com a linguagem e com as muitas vertentes da política literária.
Aprendi que um poema autêntico é uma aventura – mas, uma aventura
planificada, como diz o Décio Pignatari. Sou um poeta em busca da essência.
Mas o que é a poesia se não apenas a essência, não é mesmo?
Conheceu pessoalmente o Mário Quintana? Como se deu isso? Como ele era pessoalmente? Na verdade eu
já o conhecia das ruas. Morei muitos anos em Porto Alegre. Encontrava
sempre o poeta no Ryan, um café tradicional da Rua da Praia que não
existe mais. Também numa banca do Mercado Público, comendo salada de
fruta. Tive o prazer de ver Mário marchando numa passeata de greve dos
funcionários do jornal Correio do Povo. Também tive o privilégio de
assistir recital do poeta, com a Biblioteca Pública lotada. Eu e Joana
Belarmino, com quem eu era casado na época, fizemos uma entrevista com
ele em 85, quando a cidade de Porto Alegre ainda comemorava os 80 anos do
poeta. Estávamos gozando férias em Porto Alegre, onde mora ainda a minha
família. Esta entrevista, aliás, pode
ser encontrada on-line, no Jornal de Poesia, na página do Quintana.
Cansado das bajulações gratuitas, ele me confessou que só deu a
entrevista porque era para a Paraíba, para o Nordeste. Ele teve vontade e
quase morou na Paraíba, na revolução de 30. Acho que isso merece
registro, diante de tanta demonstração de xenofobia que ainda impera
neste País. Era um homem simpático, agradável, sensível bem humorado,
irônico, e extremamente lúcido. A solidão, no entanto, derramava seus
signos pelo quarto. Fomos muito bem recebidos pelo poeta que, na época,
morava num apart-hotel de luxo, cedido pelo Falcão, ex-jogador da Seleção.
Quintana havia sido despejado do Hotel Majestic, anos antes, quando o
Jornal Correio do Povo faliu. Sem salário, ele não podia mais pagar seu
aluguel. Ironicamente, hoje, o antigo Hotel Magestic é um centro cultural
badaladíssimo na capital gaúcha chamado Casa de Cultura Mário Quintana.
Pois é, Falcão teve esse gesto de grandeza, de generosidade.
Proporcionou, ao poeta, um final de vida confortável. Mas isso sugere um
debate, por exemplo, sobre direitos autorais. Um dos maiores poetas
brasileiros de todos os tempos, não pode sustentar sua velhice com os
frutos da sua obra. Qual é a nossa previdência, afinal?
Políbio
Alves na Paraíba, H. Dobal no Piauí e Nauro Machado no Maranhão são
exemplos, entre outros que poderia citar, de autores que tem construído
obras monumentais, mas que por não militarem no eixo Rio-São Paulo não
ocupam, no quadro de nossa literatura, o lugar que mereciam. Por que, na
era da informação dinâmica, isso ainda ocorre? Concordo
plenamente. E tem muito mais gente. Por exemplo Jorge Cooper, de Alagoas,
Rubervan du Nascimento em Teresina, Saulo Mendonça na Paraíba, Alberto
da Cunha Melo em Pernambuco, Antônio Brasileiro na Bahia e gente da novíssima
geração, como um baiano de Bom Jesus da Lapa, João Filho, que faz uma
poesia épica e inventiva, quase uma ópera-rap... Mas, na verdade, penso
que a internet veio nos libertar um pouco dessas amarras de interesses que
envolvem muitas publicações e a política editorial dominante. Por
exemplo, acho que esses nomes que você sugere e outros tantos são bem
mais representativos que uma certa meia dúzia que têm espaços generosos
para escrever “poesias-potoca” e “manifestos-potoca”. Mas, veja
bem, eles não contavam com a internet, onde podemos divulgar as obras dos
grandes poetas que ficaram escondidos nas províncias, oprimidos pelos
donos do poder literário nacional. A internet tem esse lado anárquico
que me parece muito positivo. O Governo Lula pretende implantar o fim da
exclusão digital. Muito bem! Se conseguir colocar, pelo menos, um
computador com acesso a internet em cada escola pública brasileira, já
será uma revolução, tenha certeza.
Que
estímulo tem, hoje, o poeta para criar? Dois estímulos
fundamentais: a linguagem e a vida.
Qual a função social do escritor? A função social do escritor é escrever, representar seu tempo através
da palavra. No caso da poesia,com arte. “O
conhecimento poético é o único que nos resta diante do progressivo
aniquilamento da visão religiosa ou perante a dispersão do conhecimento
científico” (Octavio Paz. Trad. Floriano Martins). Exagero de Paz? O
que você pensa? Octavio Paz é um dos nomes mais respeitáveis da poesia universal, mas... não sejamos tão presunçosos. Não gosto de “verdades absolutas”. Não sei em que contexto Paz escreveu isso, mas podemos dizer que esse aniquilamento e essa dispersão também podem ser encontrados no “conhecimento poético”. Poesia, penso eu, é a subversão.
Qual
a importância, para sua obra, de ter feito parte de “Na Virada do Século”,
a importante antologia organizada por Cláudio Daniel e Frederico Barbosa? Foi
muito determinante. Principalmente pelo fato de Frederico Barbosa ter
tomado conhecimento da minha poesia através dos seus alunos, em São
Paulo. Eles liam meus poemas nas Agendas da Tribo e na internet. Esse foi
um processo coerente com a minha vida inteira, onde nadei sempre contra a
corrente. E mostra o quanto Fred e Cláudio Daniel foram ousados e
sinceros neste projeto. A antologia, inclusive, conta com uma seção
dedicada a poetas inéditos. Inéditos, mas de grande qualidade como André
Dick, Amador Ribeiro Neto e Micheliny Verunsch. Junto aos inéditos, temos
alguns dos nomes mais representativos da poesia brasileira contemporânea,
como Arnaldo Antunes, Glauco Mattoso, Antônio Risério, Carlito Azevedo,
Carlos Ávila e os próprios organizadores. Então, ter participado de um
projeto de tamanha magnitude e da forma como foi concebido, é uma coisa
que vai marcar para sempre a minha vida. A antologia não se propôs a
estabelecer um podium, mas a realizar um diagnóstico, um mapeamento da
poesia de invenção em nosso País.
Isso é que é fundamental. Os organizadores deixaram claro que era
um trabalho de pesquisa e não de pretensos juízes querendo estabelecer
um veredito apontando os melhores. Ora, isso é tão irrelevante quanto
mentiroso. Ter participado, pois, foi um prêmio pela minha coerência de
não fazer concessões nem bajular ninguém para ter acesso a publicações
de bom nível.
Como
você avalia a importância do Concretismo para a cultura brasileira,
especialmente para a poesia? Bem,
foram abertas algumas portas que nunca mais poderão ser fechadas. Acho
que anos depois tivemos movimentos importantes, também, como a Poesia Práxis,
o Poema Processo, o Ocopoema e outras tantas tentativas de revoluções
estéticas espalhadas por aí. Enfim, penso que serviu para alertar sobre
o poder da radicalização na estruturação de uma nova linguagem poética.
Muito mais que o Modernismo, a Poesia Concreta traçou uma fronteira com o
infinito para a poesia brasileira, sendo universal na própria aldeia.
Hoje, creio que 95% dos poetas nascidos do final dos anos 50 para cá,
são diretamente influenciados pela Poesia Concreta e por esses movimentos
de vanguarda, de alguma forma. A disposição para romper com as velhas
estruturas é uma coisa imensamente saudável. A Poesia Concreta e esses
movimentos se perpetuaram, também, por isso.
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