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leituras janeiro 2004 |
Ajuda de grego |
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A
Lingüística, a Pedagogia, a Análise do Discurso, a Hermenêutica, a
Psicologia e algumas outras áreas do conhecimento têm se debruçado
sobre o tema da leitura e procurado deslindar suas nuanças mais secretas.
Essa multiplicação divergente de leituras
sobre o significado do ato de ler naturalmente pode desconcertar aquele
que resolva se aventurar no tema a fim de aprimorar-se como leitor ou, no
caso de pedagogos e professores, como profissionais. Divergências à
parte, porém, dificilmente um pesquisador do tema há de negar que o fim
último da leitura seja, como nos diz o crítico literário Harold Bloom,
em seu lúcido e prazeroso “Como e Por Que Ler”, permitir ao indivíduo
“desenvolver a capacidade de formar opiniões críticas e chegar a
avaliações pessoais”. Lemos – diz-nos Bloom – “porque, na vida
real, não temos condições de ‘conhecer’ tantas pessoas, com tanta
intimidade; porque precisamos nos conhecer melhor; porque necessitamos de
conhecimento, não apenas de terceiros e de nós mesmos, mas das coisas da
vida”. Ler,
ao contrário do que as pedagogias autoritárias apregoaram, é um diálogo
entre sujeitos; o texto é o lugar onde o sujeito-autor
e o sujeito-leitor se solidarizam.
Solidarizar-se, neste sentido, não pressupõe necessariamente que um (o
leitor) esteja em concordância passiva com o dizer do outro (o autor).
Estava certo Jean-Paul Sartre quando caracterizou o ato de ler (e, por
extensão, o de escrever) como um exercício de generosidade. Quem escreve
é generoso na medida em que expõe sua cosmovisão para ser apreciada por
outros; quem lê demonstra generosidade na medida em que se permite um diálogo
(de resultados imprevisíveis) com o(s) outro(s). No
entanto, o pragmatismo e a sede de lucro podem transformar esse
maravilhoso exercício de
generosidade em negócio dos mais grosseiros. É aí que surgem essas
mercadorias conhecidas como livros de auto-ajuda. Se são eles, hoje, os
mais vendidos nas livrarias de todo o país, como comprovam as estatísticas,
isso deve ser motivo de uma grave reflexão por parte principalmente de
pedagogos e professores. Não
é difícil sabermos por que o livro de auto-ajuda tornou-se tão popular.
A precariedade do nosso sistema educacional, a correria e a mecanização
imposta ao cotidiano das pessoas, a ausência de formas de lazer mais
instrutivas e o ceticismo em relação aos valores políticos e religiosos
levaram muitas pessoas a buscar nos livros de auto-ajuda uma verdadeira
forma de transcendência secular. À indústria editorial coube aplicar a
fórmula para se aproveitar da apatia e do abatimento moral desse
angustiado público-alvo: letras grandes, textos curtos, ilustrações à
farta, gente bem sucedida (?) e sorridente exposta em capas
multicoloridas, um tênue verniz de cientificidade e, acima de tudo isso,
um otimismo simplista e consolatório expresso por meio de formas leves e
didáticas, como a parábola e o aforismo. Para o pensador Edgar Morin, um
dos saberes fundamentais ao ser que aprende é a consciência de que “o
conhecimento pertinente deve enfrentar a complexidade”. Ora, só
assumimos a consciência da complexidade do conhecimento quando nos
despimos dos dogmas e da ilusão de que alguém ou alguma área do
conhecimento irá nos fornecer o Caminho da Verdade; isso demanda muita
humildade e a consciência de que todas as esferas do saber estão
interligadas. Nos livros de auto-ajuda, para a tristeza de Morin e a
nossa, ocorre a planificação da complexidade do mundo; nestas obras, a
questão da felicidade/infelicidade , por exemplo, reduz-se unicamente à
disponibilidade da pessoa em ver as coisas pelo “lado positivo”. Na
verdade, quase todos os ensinamentos desses livros já sabemos de antemão;
no entanto, porque estamos carentes e de estima baixa, queremos ouvi-los
pelas palavras de outrem. Esse gênero de livro, portanto, pressupõe um
diálogo assimétrico (portanto, um pseudodiálogo) em que um leitor
passivo supõe escutar uma voz autorizada, quando não raras vezes está
diante de um charlatão sedento por lucros. Ademais, há trabalhos muito
mais sérios e sistematizados de outros profissionais, como os psicólogos,
que podem trazer de volta a estima e o gosto pela vida de pessoas que se
encontram ineptas a uma convivência interpessoal e intrapessoal saudáveis.
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