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| leituras
março 2004
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Souza Leão entrevista Wanderson Lima
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Como anda a cena poética do Piauí? Wanderson: Nossa cena poética ainda prescinde de maior amadurecimento. A amizade e poder de influência sobrepujam o mérito e, dessa forma, muitos professores mal preparados, juristas medíocres e políticos oportunistas passam-se por escritores de respeito; falta envergadura intelectual a muitos dos nossos escritores que, míopes, mal vislumbram a literatura que se faz fora das cercanias da aldeia. Para sobreviverem e aparecerem, nossos melhores valores, de ontem e de hoje, são obrigados a saírem daqui e procurarem melhor sorte no eixo Rio-São Paulo. Isso aconteceu com os poetas Da Costa e Silva, Mário Faustino e Torquato Neto no passado e acontece hoje com o poeta Álvaro Pacheco, o crítico e romancista Assis Brasil e o poeta e sociólogo Clóvis Moura. Ora, como criar uma tradição intelectual se nossos melhores intelectuais são obrigados a nos deixar? Diz o ditado que quando os gatos estão ausentes os ratos fazem a festa. É mais ou menos isso o que se dá por aqui.Porém, é perigoso generalizar; decerto há pessoas sérias – uma minoria, é forçoso dizê-lo – querendo alavancar a literatura produzida no Piauí. Deixando esse problema secular de lado, há uma meia dúzia mais ou menos de poetas a que tenho respeito a suas obras. Além de H. Dobal, figura ímpar nas letras brasileiras mas menos conhecido do que gostaríamos, destaco os trabalhos de Rubervam Du Nascimento (maranhense radicado no Piauí desde a década de 70), Durvalino Couto, Paulo Machado, Álvaro Pacheco, do estreante Ranieri Ribas ( este, baiano de nascença, revela-se , além de poeta, exímio crítico e polemista), de Elias Paz e Silva, Francisco Miguel de Moura e Dílson Lages, estes três últimos com obras cheia de oscilações.
Como insere a sua poesia na poética atual? Wanderson: O autor, a meu ver, deve ser o último a se preocupar em filiar sua obra a esta ou àquela corrente. Vou tentar, pois, fugir parcialmente à pergunta indicando a que “facções” da poética atual tento me afastar: primeiramente, dos remanescentes da chamada Poesia Marginal, pois não aprovo o desleixo formal, o maniqueísmo, o humor pelo humor e o menoscabo pelo labor intelectual a pretexto de se fazer arte do contra, arte revolucionária; em segundo, aos adeptos das vanguardas ultraformalistas, mormente alguns pós-concretistas que, sem o mesmo repertório de informações dos Campos e de Pignatari, produzem caricaturas risíveis. Por que ter uma home page na Internet? Wanderson: Se no eixo Rio-São Paulo é difícil publicar poesia, imagine no Piauí onde, a rigor, só há uma editora não estatal, esta ainda por cima nas mãos de um grupo nada aberto a alienígenas neófitos. Bancamos o próprio livro que raramente ultrapassa a vendagem de 50 a 80 exemplares, pois aqui, como de resto na maior parte do país, há mais poetas que leitores de poesia. Tenho tentado, com meus imprescindíveis amigos, alavancar o selo Amálgama, criado pela iniciativa do poeta Adriano Lobão Aragão, mas não sabemos se vai dar certo. Qual a saída, então? A Internet, que acredito que vai revolucionar cada vez mais a forma de divulgação e consumo de poesia. Como foi a sua experiência como editor de fanzines? Wanderson: Mergulhei, em minha adolescência, em dois mundos aparentemente incoadunáveis: o silêncio monástico das bibliotecas e o caos maravilhosamente infernal dos shows de rock. Lia Augusto dos Anjos, Baudelaire e Gregório de Matos e ouvia Black Sabbath , Iron Maiden e Led Zeppellin. Sonhava ler Rimbaud e Keroauc mas não havia isso por aqui, pelo menos nas bibliotecas mais que precárias, ainda hoje. Quis botar o pé na estrada mas minha timidez dantesca de roqueiro bem comportado não me permitiu ir além do meu quintal. Neste contexto, editar fanzines era uma forma de rebelião discreta, bem mais discreta que a tatuagem e o uso de entorpecentes. O que há na sua coluna “O Sabor das Palavras”? Wanderson: A coluna “O Sabor das Palavras”, que divido com o poeta amigo Dílson Lages, é semanal e trata quase exclusivamente de poesia, isto é, de questões de poética, de tradução, de entrevistas e de resenhas de obras de autores contemporâneos ou não, daqui principalmente mas também de outras partes do Brasil.Apesar do espaço que o Jornal “Diário do Povo” gentilmente nos cedeu não ser o que sonhávamos, dá para fazer alguma coisa. Eu, particularmente, que tenho um veio para a polêmica maior que o meu amigo, já arranjei alguns dissabores e também dois ou três amigos. Para mim, a coluna tem cumprido a sua função, que não é esgotar obras ou selecionar autoritariamente o que deve e o que não deve ser lido, mas sim suscitar debates, apresentar autores pouco conhecidos e até às vezes propor novos vieses de leitura para obra de poetas já assimilados pelo público. Como é ser professor de literatura e redação? Wanderson: Só não vou dizer que é maravilhoso porque trabalho demais e às vezes me sobra pouco tempo para leituras pessoais, para escrever e para família. Mas é uma maneira de me manter 24 horas por dia perto da literatura. A experiência de 10 anos em sala de aula me ensinou muita coisa. Por exemplo, me ensinou a não ser tão cético em relação ao poder da poesia.Ministrei, ano passado, oficinas de poesia para jovens de periferia e me surpreendi.Apesar de as aulas serem no fim de semana, inscreveram-se 50 adolescentes dos quais quase 40 foram até o final. Deles, pelo menos uns cinco tinham a poesia latente em si mas desconheciam. Líamos, relaxávamos, escrevíamos poemas coletivos ou solitários, recitávamos, representávamos. Foi um momento ímpar em minha vida e na da maioria deles também. Quais são suas influências literárias? Wanderson: Responder a esta pergunta não é fácil. Se eu citar uma lista enorme vou parecer pedante; se não fizer isso, posso me trair. Entre as duas opções, prefiro me trair, reduzindo a lista ao essencial, excluindo inclusive nomes de artistas de outras áreas (da pintura e do cinema, particularmente) aos quais devo muito.Enquanto substrato conteudístico (mas também estilístico), Cervantes, Montaigne, Machado, Dostoiéviski, Kafka, Cioran, Nietzsche, Ernesto Sábato e Raduan Nassar; enquanto substrato estilístico (mas também conteudístico), Augusto dos Anjos, Baudelaire, Drummond, Nauro Machado, Manoel de Barros, Mário Faustino, Emily Dickinson, Pessoa, Paul Celan e os grandes haicaístas nipônicos, Issa à frente. Pra que serve a poesia? Wanderson: A pergunta é complexa, mais adequada para um tratado.Vou tentar, porém, respondê-la, mesmo correndo o risco de ser leviano ou rasteiro. Primeiro, como o queriam Pound e Eliot, a poesia contribui para manter eficiente a linguagem, impedindo que ela morra asfixiada por clichês; segundo, a poesia nas mãos de um Shakespeare, de um Dante, de um Paul Celan, de um Bashô, de um Li Po pode captar sutilíssimos estados de espírito ou penetrar em certas sendas do humano impossíveis de serem abarcadas por qualquer outra forma de conhecimento. Dada minha limitada experiência de leitura, não posso asseverar se Harold Bloom está certo ou errado ao argumentar que Shakespeare inventou o humano, porém é certo que o bardo inglês, assim como outros poetas, disse coisas sobre o humano inéditas. Com quantas metáforas se faz um poema? Wanderson: A metáfora é, em verdade, a pedra de toque da poesia, mas não é o maior ou menor número de metáforas que irá indicar se o poema é bom ou ruim. Ponge e Cabral são grandes poetas assim como o são também René Char e o Jorge de Lima de “Invenção de Orfeu”. O que deve ter um poema para que seja considerado seu? Wanderson: Os poucos poemas razoáveis que escrevi são aqueles que mantêm um equilíbrio tenso entre o espírito de Apolo e o de Dionísio. Fugir do fantasma do confessionalismo filosofante – fantasma esse que já me rondou – não é tão difícil quanto escapar da sereia do formalismo, da arte que devora a si mesma. Essa sereia me ronda mas, felizmente, meu niilismo teima em adentrar pelas frinchas do poema. A prosa dos filósofos-artistas Nietzsche e Cioran, a ficção de Céline, Proust e Raduan Nassar , a poesia de Nauro Machado, Hilda Hilst e Paul Celan têm me ensinado, entre mil outras lições, a tentar racionalizar a fúria, estilizar o phatos. Mas não escrevo só sob a égide do desconcerto existencial e coisas que tais. Há uma parte da minha produção poética – fruto do contacto com a poesia japonesa e chinesa (via tradução, uma vez que só leio com fluência em português e espanhol), com Octávio Paz e Ramon Jiminez e com a pintura impressionista – que é leve, sem humor negro ou barroquismos. Concorda com Jorge Luis Borges que diz: “Se há algo sem função no poema deve ser tirado do poema”. Wanderson: Isso é relativo. Encanta-me, por exemplo, os “excessos luminosos” (Murilo Mendes dixit) de um Jorge de Lima, de um Piva, de um EmilioWestphalen. Como escrevi uma vez, a concisão é muitas vezes tomada como um valor de “per si”; a fórmula “POEMA BOM = POEMA CONCISO” tem sido sem dúvida a muleta de muitos poetas e críticos literários.
Quem deve escrever resenha literária: o jornalista ou o acadêmico? Wanderson: Ambos. Seria uma atitude autoritária dizer que aquele pode fazer resenha e aquele outro não. Irrita-me, porém, quando leio a resenha de um jornalista e noto que ele não leu a obra direito ou está fazendo aquilo em troca de algo. Por que há esta divisão poetas de um lado e universidade do outro? Wanderson: Miguel Sanches Neto respondeu bem a essa pergunta. Aproprio-me da reposta dele: “Se a crítica de jornal fosse toda ela oriunda da universidade, o leitor só poderia ter acesso aos lançamentos através da paciente busca em velhos sebos”. Raros são os professores universitários que estão dispostas a garimpar, a descobrir novos valores. Qual o papel do escritor na sociedade? Wanderson: Há certos sujeitos afeitos à solidão e impenetráveis às diversões banais e à máfia imunda da auto-ajuda para quem a literatura é algo imprescindível, uma questão de vida ou morte.A esses os escritores se fazem imprescindíveis. Além do mais, conforme nos diz Umberto Eco, o nosso modo de usar a linguagem reflete nosso modo de ver a realidade; dessa forma, quando um escritor se propõe a renovar a linguagem ele está, também, incitando seus leitores a renovarem suas percepções de mundo. |
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