\n'; document.write(barra); } } changePage();
|
leituras junho 2004
|
"Poesia é nunca se alfabetizar" entrevista com Fabrício Carpinejar
|
|
Durante
alguns meses, troquei com Fabrício Carpinejar alguns e-mails em que
discutimos a poesia alheia e, às vezes, a nossa (a minha e a dele).
Surpreendi-me como, em seus breves e-mails, Carpinejar conseguia ser a um
só tempo crítico e poético. A essa época, já havia lido a histórica
entrevista que o autor de As Solas
do Sol (1998) havia concedido, na revista eletrônica Agulha, ao crítico
e poeta Floriano Martins e senti que valeria a pena fazer-lhe outras
perguntas, quiçá completares às indagações argutíssimas de Floriano.
O resultado são essas nove perguntas que seguem e que Capinejar
respondeu, via e-mail, pelo mês de agosto do corrente ano. Fabrício
Carpi Nejar nasceu em Caxias do Sul (RS), em 1972. É poeta e jornalista.
Mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS.Publicou cinco livros de
poemas, o mais recente, Caixa de Sapatos(2003), pela Companhia das Letras.
Recebeu diversos prêmios literários, entre eles o Prêmio Internacional
'Maestrale - San Marco' 2001, MARENGO D'ORO (5ª Edição), de Gênova (Itália),
categoria obra em língua estrangeira, com poemas de Um Terno de Pássaros ao Sul
e o Prêmio Nacional Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras,
com Biografia de uma Árvore,
escolhido o melhor livro de poesia de 2002. Ernesto
Sábato, em um de seus ensaios, diz que em nossa época um escritor que
queira se passar por profundo deve ser obscuro, pois temos associado
clareza à superficialidade. Esse comentário de Sábato parece ter a ver
com uma linha de nossa poesia que engloba Bandeira, Quintana, Manoel de
Barros e você, verdadeiras vítimas desse julgamento equivocado,
patrocinado principalmente por certos vanguardismos formalistas afeitos a
experimentações herméticas as quais só é possível a compreensão se
estivermos por dentro de seus pressupostos teóricos. O que pensa sobre
isso? Carpinejar:
Eu penso que o poeta não deve ir ao fundo da linguagem, mas permanecer em
vigília na superfície. A superfície é densa e expressiva, onde o mundo
nos assiste. O que me importa é o cheiro da rua, da casa, das roupas,
remexer no desperdício. Estar tão próximo do leitor que ele me sinta
longe. O fundo é isolamento e nos afasta da vulnerabilidade. Desde criança,
tenho uma empatia pela fraqueza. Sempre tentei amparar quem estava
desfocado, deslocado, às margens. Minha linguagem é um esforço de
diplomacia entre a imaginação e a realidade, entre os que as pessoas
pensam e o que elas são. Criou-se uma crença de que a boa poesia é
aquela que não é compreendida. Quanto mais difícil, melhor a criação. Não concordo. A poesia precisa falar para todos os tempos em
qualquer tempo. O tempo tem que estar vivo no verso. O que adianta dizer
para não dizer? O que adianta apenas preencher um lugar na estante? O que
adianta escrever para si? Melhor então é nunca publicar. Escrevo como
doação, buscando transferir meu sangue. Minha única vanguarda é
acompanhar minha morte a distância. Deixar que ela se aproxime. Enquanto
isso, vou fazer da vida a minha mais alta despedida. O verdadeiro poeta não
precisa de um prefácio para ser entendido. A sensibilidade tem urgência
e não fica esperando pressupostos teóricos. Mário
Faustino, quando de sua página no JB, reclamou certo vez que o
Brasil estava cheio de “Drummondzinhos”. Talvez hoje ele
dissesse que está cheio de “Cabralzinhos”... Carpinejar:
Mario Faustino era um leão (crítico) com coração de ave (poeta).
Acredito que Cabral teve muitos imitadores em vida. Mas é impossível
imitar Cabral, o autor brasileiro com o melhor sistema anti-vírus. Houve
até quem conseguisse cotejá-lo na forma, mas sem nunca atingir sua
implacável visão de mundo. Imitar Cabral é tentar ser gago. Tudo não
passará de uma caricatura. A poesia brasileira contemporânea está se
libertando dos referenciais da última metade do século XX. Mais solta,
convicta, menos experimental, capaz de inaugurar sua fome sem precisar
recorrer à metalinguagem. Vários autores começam a aparecer com
intensidade, não transformando seus livros em teses acadêmicas e
procurando sentir o peso das contradições e paradoxos de nossa época. O
crítico Hidelbrando Barbosa Filho afirma com lucidez: “Poeta que pensa,
Carpinejar, no entanto, não busca seu pensamento fora de sua vivência
pessoal. À semelhança de Rainer Maria Rilke, nas Elegias de Duíno, sua
convocação metafísica nasce do pacto com a vida, do olhar sobre as
coisas, do olhar por dentro das coisas, e não exteriormente das doutrinas
filosóficas que aí circulam.” Você concorda com os que afirmam que os
poetas romperam “o pacto com a vida” e passaram a produzir uma poesia
muito literalizada e auto-referente? Carpinejar:
Concordo. Centenas de poetas passaram a problematizar o poema, com medo da
influência de Cabral, Bandeira e Drummond. A poesia virou um divã, uma
terapia. Ao invés de propor um pacto com a vida, regurgitava a
impossibilidade de se fazer um poema. Basta pegar aleatoriamente qualquer
iniciante das últimas décadas, sempre existirá um verso pedindo
desculpas por não conseguir vencer a insônia. Há gente que ficou cega
com a página em branco. Daí que os leitores se afastaram dos poemas pela
ausência de identificação e foram encontrar ressonância biográfica
nas letras da MPB e do rock. Agora o poema voltou a ser música, sentido e
olhar demorado sobre as coisas. Retoma-se os grandes temas a partir das
pequenas delicadezas e irrupções do cotidiano. O cânone literário brasileiro precisa ser
reavaliado? Carpinejar:
Sim. É um crime deixar de fora do cânone Cecília Meireles, Murilo
Mendes, Jorge de Lima e toda uma poesia filosófica e mística. A crítica
tentou dilapidar nossa herança barroca e visionária. A necessidade de
engajamento nos anos 70 e 80 criou uma obrigação aos poetas de
transformar o mundo. O que parecia mais subterrâneo e religioso, ficou de
lado. Uma tônica realista e ateísta impregnou o cânone brasileiro,
dificultando o acesso a alguns importantes precursores de nossa
brasilidade. O lirismo acabou deslizando para os epigramas, ao humor, aos
trocadilhos, aos haicais preguiçosos e aos anúncios publicitários. Do
protesto, a poesia virou brincadeira. Borges
parece ter sido muito importante em sua formação, como transparece
especialmente em seus dois últimos livros... Carpinejar:
Ainda é importante. O que mais gosto dele é a espessura do pensamento.
Ninguém lê Borges sem mudar o tom de voz. Ele exige uma projeção fônica
de fábula, de vatícinio e história. Borges controlava a paixão durante
a formulação poética para que ela despontasse somente na leitura, na
oralidade. Ele acreditava que a grande magia estava em reunir novamente a
narração e o poema, dizia que os leitores estavam sedentos pela épica.
Nesse sentido, meus livros formam um romance versificado, um desdobramento
de um enredo, feito pela velocidade das metáforas. O
diálogo com Manoel de Barros em seu último livro, Biografia de uma Árvore, é notório e foi ressaltado por críticos
como Miguel Sanches Neto. Até que ponto esse diálogo foi relevante? Qual
a importância, para nossa literatura, da produção literária de Manoel
de Barros? Carpinejar:
Um poeta precisa ser influenciado principalmente pelos seus defeitos. Isso
é estilo. Sou também influenciado por aquilo que não foi escrito.
Manoel de Barros é um grande escritor, peculiar, explorando os desvios da
língua já anunciados por Raul Bopp e Guimarães Rosa. Faz a catequese do
traste, a pedagogia do ínfimo. Defende uma teologia do abandono, pós-industrial.
Sua estética simula o nível da criança enquanto está aprendendo.
Recupera a primeira dentição da linguagem. Realiza uma poética da fé,
religiosa, que reivindica a crença de que todos partilham das mesmas
convicções. Barros infantilizou a forma poética, não se restringindo a
tematizá-la. Propõe que o objeto seja de todos não sendo de ninguém.
Minha poesia é mais desconfiada, cínica, não quer o deslumbramento, mas
o assombro, algo entre a alegria e a dor. Quero misturar os sentimentos:
chorar rindo e rir chorando. Não falo como uma criança, porém percorro
as diferentes idades do homem em um mesmo livro. Há
uma forte unidade em sua obra, não só entre os poemas de um mesmo livro
mas entre um livro e outro. Parece-me, porém, que seu primeiro livro, o
surpreendente As Solas do Sol,
foge dessa unidade, é uma experiência a parte... Carpinejar:
Apronto os livros simultaneamente. Não é um processo estanque,
individualizado. Desdobro pensamentos em uma única matriz. Meu núcleo é
a família e suas relações de poder e despoder, influência e desatino.
São manuscritos emendados, embaralhados na escrivaninha, manchados pela
luz líquida. Em As Solas do Sol,
existe metáforas fechadas que aos poucos foram se abrindo nas demais
obras. É um livro à parte, mas com extrema significação no todo. Fui
raspando minha estréia, retirando o que tentava me esconder, desvelando o
que ainda não estava suficientemente formulado. O personagem de As
Solas do Sol, Avalor, pode ser o mesmo de Um terno de pássaros ao sul, Terceira
Sede e Biografia de uma árvore.
Uma espécie de Jó sem fé. Ficou três vezes viúvo: da esposa, dos
amigos e de seu tempo. É o último da fila. Busca um lugar seguro para
guardar sua memória. Está procurando até hoje.
Carpinejar:
Um terno de pássaros ao sul
foi o livro mais difícil, pois o considero um divisor de águas da minha
literatura O trunfo dele consiste em não ser derrotista. É muito fácil
cativar pela dor, viciar-se na depressão, exaltar o sofrimento. O
romantismo se espalha pior do que a gripe. O difícil – e estimulante
– é superar as adversidades e cantar a alegria que pode existir no mais
banal. No início, o filho pretende condenar o pai pródigo. Entretanto,
descobre que está assim se condenando. A amizade se fortalece pela
compreensão. Compreender é perdoar de certo modo. Eu corria o risco de
ser confessional. Armei-me, portanto, da ironia, conciliando o apelo dramático
com a autocrítica. O que proponho são “conficções”, confissões
inventadas. Sou um perfeccionista pelas imperfeições. Quero mudar o
senso comum de lugar. Procuro o avesso e a inversão, corromper as
certezas. Fazer com que a palavra não morra no costume. Quem pensa que a
vida está ganha, não está. Quem pensa que está perdida, também não
está. Literatura é indefinição, tensão, desejo, estar na
contracorrente do óbvio, caminhar do fim ao início. Poesia é nunca se
alfabetizar. Renuncio à erudição para desaprender e perceber cada
pessoa como um novo dialeto. Renuncio ao conhecimento para me desconhecer.
Quero desescrever cada vez mais, desaparecer para que quem está lendo se
enxergue. Que ninguém repare que a poesia foi escrita. Meu nome não é
um endereço. O autor precisa se ausentar do livro para se fazer presente
por inteiro. O crítico Maurício Melo Júnior. talvez
tenha descoberto o grande duelo em minha obra: “do anônimo com o
inonimável".
Carpinejar:
A poesia não é posta na escola como criação, porém apenas como
leitura e catalogação de gêneros e escolas. Persiste uma interpretação
mórbida da vida do autor em detrimento da obra. Sabe-se mais das doenças
de Castro Alves do que de suas odes. Esse é o grande erro. É impraticável
criar um laço com aquilo que não é exercitado. Ninguém nasce tocando
violão. O jovem tem uma vocação natural à poesia, procurando se
expressar por diários, cartas e agendas antes de qualquer outro gênero.
Infelizmente, não recebe o incentivo, o exercício da sensibilidade, a
intimidade do convívio, que insira o verso como algo espontâneo, real,
funcional e vivo. O sistema educacional brasileiro trata a poesia como um
luxo ou um acessório. Pela desinformação, ela termina sendo sinônimo
de tumba formal ou de derramamento, catarse e atentado emocional ao pudor.
Poesia é o contrário: contenção e ritmo, idéias e música, relâmpago
da voz.
|
|