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agosto 2004

 

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Riscos da Poesia Minimalista

 

Wanderson Lima

wandersontorres@hotmail.com

 

 

 

Pensar a extensão do poema como elemento constituinte significativo do efeito estético não é nada novo. Já Edgar Allan Poe (1809-49),no ensaio “Filosofia da Composição”, entendia a brevidade como elemento caracterizador e indispensável da lírica. Um poema lírico que não possa ser lido de uma assentada só é, segundo Poe, ineficaz – a “elevação da alma” e a “excitação intensa” (com estas expressões ele define o prazer estético) esfumam-se. Poe chega mesmo a duvidar de que exista, de fato, poemas longos, pois que eles não passam de “uma sucessão de poemas curtos, de efeitos poéticos breves”. Falando de Milton e sua obra máxima, o poeta de The Raven enceta a seguinte crítica:

Pelo menos a metade do Paraíso Perdido não é mais que pura prosa: há nele uma série de excitações poéticas salpicadas inevitavelmente de depressões. A obra, por causa de sua extensão excessiva, carece daquele elemento artístico tão decisivamente importante: a totalidade ou a unidade de efeito.[i]

Essa concepção de Poe da indissociabilidade entre lírica e brevidade encontrou, por motivos que não nos cabe discutir neste texto, um porto seguro em todo o século XX e neste começo de século XXI. O poeta italiano Giuseppe Ungaretti escreveu, em 1917, esse exemplar pouco comum de linguagem concentrada e luminosa, Mattina:

M’illumino

d’immenso[ii]

É o caso de lembrarmos também de Oswald de Andrade e sua ironia fulminante no mais-que-lapidar Amor / Humor. Em apenas duas palavras, a primeira funcionando como título e parte integrante do poema, Oswald desconstrói a sólida e secular da tradição do discurso amoroso da poesia lusofônica, costumeiramente envolta em áureas de retoricismo e nefelibatismo. E esses são apenas dois nomes casuais, a que outros poderiam ser acrescidos.[iii]

A brevidade e sua irmã univitelina, a concisão, tornaram-se tão decantadas que acabaram por adquirir um valor de per si, como se fossem parâmetros estéticos. O que, aliás, não é nada surpreendente se levarmos em conta que vivemos um momento histórico em que falar de valores estéticos virou quase um fascismo. Pelo menos é assim que a corrente dos estudos culturais pensa, propugnadora que é de uma visão documentalista da literatura.

Imersos numa cultura em que o maniqueísmo e o esquematismo simplificador são escoras de primeira ordem, logo passamos a interpretar o breve como bom e, naturalmente, o longo como ruim. Ficamos cegos para o que Murilo Mendes denominou, referindo-se à Invenção de Orfeu de Jorge de Lima, de “excessos luminosos”.  Esquecemos que o poema longo não é necessariamente verborrágico e que o poema breve pode muitas vezes está mais próximo da indolência, da falta de fôlego intelectual e do modismo (principalmente do modismo) do que da capacidade de condensar no mínimo de significantes o máximo de significados.

Quando uso as expressões “poema breve” ou “poesia minimalista”, não me refiro aos quatorze versos de outrora.Escrever algo da extensão de um soneto, para muitos poetas de hoje, já é um desperdício. Refiro-me a certos poemas, geralmente de três versos, que não se realizam nem como haicai nem como poema-piada. Para haicai, faltam a eles a simplicidade zen, o satori (iluminação súbita, verdade desvinculada de injunções lógicas), a supressão do ego; para poema-piada, ressentem-se da ausência de certa tensão dialética com os discursos instituídos, injetadas por certa ironia corrosiva, como se percebe nos melhores momentos de um Oswald.

Obviamente, seria de estrema inocência supor que, do exposto acima, estou a defender a idéia de que um poema breve, para ser bom, deve enquadrar-se rigorosamente nos moldes do haicai, do tanka, do poema-piada, do epigrama ou do que seja. Da mesma que, no passado, poetas de pouco talento se escoraram na forma soneto supondo que isto lhes garantiria alguma excelência poética, hoje não poucos poetas, igualmente de estro anêmico, pensam que caricaturando Oswald ou os concretistas ou Bashô estão demonstrando estro ou, pelo menos, escamoteando a falta de talento.

Essa poesia minimalista cambiante tem sido fartamente praticada entre nós, piauienses.Trata-se, claro, de uma tendência (modismo?) nacional de certa longitude já.  Climério Ferreira, Fernando Basto, Victor Vigilius, Flávio Sousa, Marleide Lins, Caio Negreiros e Rogério Newton são, entre outros, nomes que podem ser citados. Não raras vezes, os micro-poemas destes autores nascem de leituras apressadas de Oswald, dos concretistas e do haicai à brasileira praticado na linha de Leminski ou de Millôr Fernandes. E, diga-se de passagem, ao contrário de Leminski, haicaísta genuíno e tradutor de Bashô, a estrela de Millôr, no campo do haicai, embasa. Não é incomum, pois, vermos nas coletâneas destes poetas piauienses o poema-piada oswaldiano desandar para o humor pelo humor ou para o protesto desliteralizado ou a sutileza e a ingenuidade do lídimo “haiku” nipônico se transmutar em aforisma ou em exercícios de auto-análise:

 

Falta arroz, falta isso e aquilo.

Alguns insistem no fugaz.

Nada a acrescentar

além de palavras.

      (Victor Vigilius)

 

Meu corpo lateja

minha alma diz

assim seja

       (Rogério Newton)

 

A vida e a palavra

a qualquer custo

precisam ser lapidadas

      (Flávio Sousa)

 

            Mário Faustino, há não muito tempo, reputou o longo Invenção de Orfeu como nosso equivalente d’Os Lusíadas, afirmando ser Jorge de Lima “o único no Brasil a ter possuído o tom e a medida do epos[iv]. Quem hoje lê o Invenção? Claro que não quero ser simplista: se quase não se lê mais Jorge de Lima, não é somente por culpa de nossa paranóia da concisão. Mas, sem dúvida, esse é um fator a considerar. É mais “legal” ler os micro-poemas do bem humorado Leminski do que nadar nas caudalosas águas órficas de Jorge de Lima. Esse pragmatismo pueril nos empobrece. O ideal seria lermos um e outro. Devemos nos contentar com a idéia de que o poeta de hoje tem de escrever textos breves para poder ser lido?

            Talvez devêssemos reaprender que em poesia, também, tamanho não é documento. Brevidade e extensão não se constituem em parâmetros estéticos. Se Orides Fontela nos parece melhor que Gerardo de Mello Mourão (ou vice-versa), esse julgamento deve passar longe do critério de extensão. Ou então teremos abdicado do nosso bom senso.


[i] Tradução de Diego Raphael para o site Pop Box: http://www4.gratisweb.com/popbox/home.htm

[ii] “Manhã/ ilumino-me/ de imenso’, na tradução de Geraldo H. Cavalcanti. In: A Alegria. Rio de Janeiro: Record, 2003.

[iii] Conf. “Uma Poética da Radicalidade”, prefácio de Haroldo de Campos a Pau-Brasil, de Oswald de Andrade. São Paulo: Globo, 1990.

[iv] In: De Anchieta aos Concretos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

 

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