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poesia em debate
Harold Bloom |
A Fina flor da Anglofilia A Proposição Canônica em Ezra Pound e Harold Bloom Ranieri Ribas |
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“A
sensibilidade de qualquer época do passado dá sempre a impressão de que
provavelmente é mais limitada do que a nossa, pois estamos naturalmente
muito mais cônscios da falta de consciência de nossos ancestrais em relação
às coisas de que somos conscientes do que da falta de consciência, em nós
mesmos, relativamente às coisas que eles perceberam e das quais não
temos a menor idéia.” [T.S. Eliot] A proposição de um cânon,
compreendendo por tal a eleição de obras imprescindíveis à tradição
do pensamento universal — portanto, englobando a literatura, a filosofia
e as ciências humanas — requer do proponente um viés de escolha. Não
é possível arrolar autores e obras sob justificação da neutralidade, o
que implicaria em cinismo da parte do canonista. Oferecer um cânon ao público
não se resume a elencar nomes, mas, sobretudo, requer uma ampla
fundamentação estética das escolhas, ainda que redundantes, como, por
exemplo, a inclusão de Shakespeare ou Dante. É precisamente no plano da
justificação estética da escolha que ocorre a mixórdia, revelando-nos
a inexistência de cânones incontroversos. Como sabemos, o reconhecimento canônico
de um autor está subordinado às categorias espácio-temporais que
empreendem a leitura ativa e presentificada das obras. Assim, a obra de
Shakespeare teve reconhecida sua posição canônica somente no século
XIX, permanecendo esquecida até a segunda metade do século XVII. Durante
o século XVIII, o crítico Samuel Johnson — rigoroso classicista e
moralista convicto — resgatou, em edição crítica de oito volumes, os
dramas de Shakespeare. Não obstante divergências estéticas com a obra
do dramaturgo, Johnson a analisou de forma crítica e imparcial,
prefaciando os volumes sem permitir a intromissão de juízos infundados.
Juntamente com Rowe e Pope, o crítico pode ser considerado co-responsável
pela recepção moderna de Shakespeare, cujo nome, no início do século
XIX, ou seja, em pleno domínio do romantismo, adquiriu status
canônico na literatura universal. O caso de Samuel Johnson é-nos
relevante porque denuncia o caráter parcial da crítica. Em seu capital The
Lives of the Most Eminent English Poets (Vidas dos mais eminentes
poetas ingleses) o crítico não manteve a imparcialidade que dedicara aos
estudos da obra de Shakespeare, apresentando seus biografados de forma
nitidamente parcial, confundindo a recusa de obras com a desaprovação
dos homens-autores. Assim, a poesia lírica de Milton, especificamente a
elegia bucólica de Lycidas[1],
fora detratada, na mesma proporção em que John Donne e a tradição
metafísica da poesia inglesa fora relegada ao olvido. Johnson, adepto do
clacissismo, recusara a Donne pelo tom barroquizante de suas metáforas
surpreendentes, ou melhor, pela “aspereza de seus versos” [2].
Cerca de cento e cinqüenta anos depois, T.S.Eliot propôs uma releitura
dos Metaphysical poets,
conduzindo-os ao lugar canônico que lhes cabia. Eliot, não obstante, alerta para a
necessidade de considerarmos de maneira trans-histórica os juízos de
Johnson. Não podemos cobrar de um crítico do século XVIII os mesmos
atributos de uma apreciação estética moderna sob custo de incorrermos
adrede no erro cometido, ou seja, o preconceito. Como assinala Eliot: “Precisamos não ser estreitos ao
acusá-lo de estreiteza, ou preconceituosos ao acusá-lo de preconceito
[...] Para o poeta e o crítico do século XVIII, os valores da língua e
da literatura estavam mais intimamente associados do que parece aos
escritores e ao público leitor de nossos dias. A excentricidade ou a
esquisitice eram condenáveis: um poeta era louvado não porque inventasse
uma forma original de linguagem, mas por sua contribuição à língua
comum. Johnson e os homens de seu tempo observaram que se registrara um
progresso no refinamento e na precisão da língua, assim como na finura e
no decoro dos costumes, e tais conquistas, por serem recentes, eram
altamente estimadas [...] Johnson, com toda a certeza,
viu o corpo da poesia inglesa do ponto de vista que adotou para
assegurar um progresso, um refinamento da língua e da versificação
segundo linhas definidas [...] A ênfase sobre o estilo e as normas comuns
que Johnson revela [...] pode nos induzir a superestimar o valor de uma
poesia de poucos recursos em detrimento da obra de determinado gênio que
se mostre menos obediente às regras [...] do ponto de vista de Johnson, a
língua inglesa da época anterior não estava suficientemente avançada
[...] A sensibilidade de qualquer época do passado dá sempre a impressão
de que provavelmente é mais limitada do que a nossa, pois estamos
naturalmente muito mais cônscios da falta de consciência de nossos
ancestrais em relação às coisas de que somos conscientes do que da
falta de consciência, em nós mesmos, relativamente às coisas que eles
perceberam e das quais não temos a menor idéia.” [pp.220-222] Eliot relativiza até mesmo a
sensibilidade melopéica de poetas e críticos segundo a época. Argumenta
que a acusação de insensibilidade à música do verso imposta a Johnson
em verdade se explica pela incapacidade da crítica moderna em entender os
padrões melopéicos de um poeta-crítico classicista. Imperativos poéticos
hodiernos como pioneirismo, potência inventiva e inovação
eram tratados como aberrações na literatura do século XVIII. Como um crítico
deste período, Jonhson não admirava o passado da literatura de língua
inglesa porque a sua época auto-compreendia-se enquanto culminância de
um processo de aperfeiçoamento do vernáculo. Assim, a surdez melopéica
do crítico para certos gêneros de melodia, tal como sua omissão à música
de Shakespeare e acusação de aspereza a Donne, resulta de uma
“especialização da sensibilidade” que torna mouca a audição de
outros padrões melódicos. Ao longo de seu estudo, Eliot esclarece-nos
com múltiplos exemplos que o ato crítico relativo à escolha de autores
e obras comete equívocos involuntários, como este referente à audição
classicista especializada de Johnson, e equívocos voluntários. Conforme
podemos deduzir, equívocos involuntários decorrem tanto das
idiossincrasias do crítico-indivíduo quanto das determinações e
imperativos históricos de uma época literária. O cerne da questão
reside, entretanto, nos equívocos voluntários que ocorrem, segundo
Eliot, quando o crítico suspende a aplicação de seus próprios critérios
avaliativos para benefício de um autor por quem nutre antipatia ou
simpatia pessoal, identificação ou divergência política. Um dos critérios
de reprovação mais comuns, outrossim, incide sobre o projeto vernacular
o qual recusa comportamentos desviantes no uso da língua nacional. Assim,
Milton, acusado por Pound de empreender um projeto de latinização da
literatura inglesa, fora também repreendido por Johnson que acusava-o de
pretender “utilizar palavras inglesas como um idioma estrangeiro”.
Eliot refere-se até mesmo a critérios religiosos para eleição de um
autor. Atualmente, segundo Harold Bloom, vem ocorrendo o esvaziamento dos
parâmetros eminentemente estéticos de escolha, substituídos por critérios
sociológicos do “politicamente correto”. Assim, a poesia negra, a
poesia gay, o feminismo poético, a arte engajada, entre outros, tem
substituído a boa poesia através da intromissão de valorações axiológicas
em detrimento de julgamentos estéticos. A proposição de um Cânon,
portanto, oscila de acordo com múltiplas variáveis: o vernáculo, o viés
estético do canonista, as antipatias e afetos pessoais, etc. Afora estas
considerações quanto à interferência do Gosto nas escolhas — Gosto
este que jamais adquire o estatuto do desinteresse estético kantiano —
deve-se partir da seguinte definição do problema: Cânon é toda
deliberação eletiva esteticamente justificada na qual obras e autores são
arrolados como representantes de determinada política
estética cuja proposição adquire estatuto normativo quanto à produção
artística subseqüente. Em resumo, toda proposta canônica representa, em
última instância, um programa político, e, por conseguinte, jamais
aufere o estatuto da neutralidade, incorrendo num dado interesse ético-político.
A questão central de tal definição não reside propriamente em
identificar a multiplicidade de programas e suas conseqüências para as
escolhas estéticas. Neste caso declinaríamos para um infindável número
de possibilidades que necessariamente decantariam sobre obras e nomes: um
canonista romântico tende a sobrevalorizar a estética subjetivista de
autores vernaculares; clacissistas enfatizam obras vinculadas à tradição
humano-helenística confeccionadas sob o princípio inutilia truncat; vanguardistas convergem teleologicamente autores
para si, como se suas propostas estéticas racionalmente formuladas fossem
a culminância de um processo estético multissecular; barrocos admiram o
jogo sintático-gongórico, etc. Em outras palavras, o ponto central da
definição sobrescrita reside em identificar o caráter unicista
ou pluralista do cânon
proposto. O Cânon, assim conceituado, é uma
ontologia do fenômeno estético, e como tal, adquire não apenas um caráter
político-interessado, com um caráter sobre-humano com vistas a dirigir e
regular juízos humanos. Invocar a tradição cristalizada em Dante e
James Joyce, por exemplo, permite ao canonista localizar o fundamento de
sua escolha em um lócus
sobre-humano onde habita a autoridade ancestral que impele o neófito a
proceder conforme o imperativo da reverência. O unicismo canônico carateriza-se,
desde Platão, pela proposição de uma política estética hierática (em
sentido lato, e não, simplesmente, por designação a arte egípcia), além
da recusa às liberdades e à inovação da arte. Nesta linha, o artista
deve perquirir e prosseguir as regras intrínsecas da boa-arte figurada na
tradição, a qual é imutável. Atenta Platão para as conexões holísticas
entre arte e política ao assinalar que, uma vez proliferada a prática de
transgressão das regras da tradição artística, outras esferas da ação
e interação humanas sofrerão crises. É por este motivo que autores
como Hobbes, Rousseau e Ezra Pound (que não advogava uma proposição
unicista de cânon, como veremos) nos falam da função política da arte
que, invariavelmente, consiste em manter a higidez da linguagem e em
conduzir a estabilidade dos recursos lingüístico-vernaculares de
representação do mundo social. O artista, na tradição platônico-unicista,
não é um inventor ou demiurgo, mas um tautógrafo; a liberdade
inventiva, considerada um desvio do papel designado ao artista na vida
social, gera a arte fantasmagórica a qual mimetiza apenas aparências,
sombras. A proposição canônica de Ezra
Pound, cotejada com o programa romântico-hermético de Harold Bloom,
viabiliza-nos uma visão panorâmica da idéia moderna de cânon. Ambos
tem como ponto comum a negação das abstrações sociológicas e
historicistas que reconhecem a obra de arte como fator resultante de um
contexto histórico. Em verdade, Bloom e Pound pretendem acenar com tal
recusa, para o necessário reconhecimento da autonomia do fenômeno estético,
o qual deve ser lido prioritariamente como texto, e não simplesmente como
ilustração figurativa de um contexto. A divergência neste fundamento crítico
define-se pela estratégia utilizada: enquanto Bloom assinala a autonomia
do estético pela afirmação autoral — reiterando aí seu programa crítico
neo-romântico —, e, sobretudo, pela exumação anti-secular da figura
do Gênio, este demiurgo dotado de talento e capacidades sobre-humanas,
Pound afirma a linguagem artística através da recusa das abstrações
acadêmicas, as quais são tergiversações acerca do objeto que
interessa: a poesia. Segundo o programa canônico poundiano o crítico e o
artista devem perquirir lâminas como biólogos, comparando níveis de
excelência até atingir o paideuma,
este resumo-da-opera cuja função será catalisar o processo de busca
pelos neófitos das obras de qualidade inconteste, ou melhor, das obras
canônicas. Pound, portanto, tem por estratégia de afirmação da
autonomia estética um programa oficinial para poetas com projeto
profissional (não diria, como outrora, para poetas iniciantes, uma vez
que suas oficinas servem inclusive a poetas já consagrados — que nos
testemunhem W.B.Yeats e T.S. Eliot). Ademais, o verdadeiro crítico não
elucubra ou conjectura abstrações com os clássicos; ele elabora sua crítica
como inventor de um processo estético inovador que, não obstante, é a
continuação revisada de um autor precedente: Ulisses de James Joyce é uma leitura crítica de Bouvard
et Pécuchet de Flaubert, por exemplo. Outro ponto comum incide na acusação
da indústria cultural quanto à corrupção dos valores humanistas e da
boa-arte. Paradoxalmente, apesar da condenação moral dos veículos de
comunicação de massa, Bloom apregoa a noção de Gênio, este invólucro
que, uma vez imputado a determinado autor, maximiza seu apelo de mercado.
Alega o crítico ser a idéia de gênio historicamente anterior à sua
mercantilização, a qual recusa com veemência: A Confusão a respeito de padrões canônicos relativos a
genialidade encontra-se atualmente institucionalizada, de modo que o juízo
relativo ao discernimento entre talento e genialidade está à mercê da mídia,
atendendo aos caprichos da política cultural.(p.24; 2002). O uso do gênio como efeméride
mercadológica por alguns críticos conduz Bloom a acusá-los de
“impostores”. A crítica acadêmica, por sua vez, principal promotora
do esgotamento da idéia de Gênio, é descrita como “‘Explicadores’
dos dias atuais, localizados nas nossas universidades intelectualmente
deprimidas e nos engenhos tenebrosos e satânicos da mídia” (p.36;
2002). Já Pound responsabiliza o mercado editorial pela veiculação de
uma literatura de má-qualidade, corruptora da linguagem e responsável
pela decadência do gosto. A má-circulação dos clássicos
(vernaculares, em língua original ou em boas traduções) gera distúrbios
não apenas na ordem dos juízos publicamente aceitos quanto à boa
literatura, mas ocasiona, sobretudo, a degradação da nação enquanto
organização política e social. A condenação da indústria de massa em
Pound e em Bloom diverge, não obstante, quanto ao objeto a ser
salvaguardado, ou seja, quanto ao papel ético da literatura como agente
executor de uma função pública (Pound) e humana (Bloom). A persona
composita beneficiária das riquezas do mundo literário seria tanto a
res publica quanto o indivíduo. Temos neste cotejo duas tradições
ora convergentes, ora divergentes quanto aos múltiplos pontos de análise.
Sabemos que o cânon bloomiano enfatiza a presença autoral na realização
das obras, sobrepondo o gênio demiurgo às demais forças concorrentes no
processo criativo. O projeto hermético-cabalístico tem por fundamento o
gnosticismo transcendental que recusa qualquer definição materialista de
seus padrões de análise literária: “definições materialistas do
conceito de Gênio são inviáveis, motivo pelo qual a noção se encontra
tão desacreditada na presente era, em que predominam ideologias
materialistas. A noção de gênio, necessariamente, remete ao
transcendental e ao extraordinário [...]”. Como a obra está no autor,
interessa-lhe o demiurgo. Somente o gênio povoa o cânon bloomiano, não
obstante a definição deste parâmetro de mensuração ocorrer de forma
imprecisa. O gênio é o sobre-humano dotado de uma autoconsciência
extraordinária capaz de prestar lições ao leitor expandindo-lhe a
limitada auto-visão, ou seja, é um agente portador de “um conhecimento
que liberta a mente criativa dos ditames da teologia, do historicismo ou
de qualquer divindade que se anteponha àquilo que existe de mais criativo no eu” [p.22; 2003;
grifo acrescido]. Este eu
liberto para “expansão da autoconsciência da mente” é gnóstico por
definição, ou melhor, é o próprio gênio. Por conduzir o leitor ao
auto-reconhecimento e à expansão da consciência, o gênio naturalmente
exerce uma autoridade sobre um público que orbita em torno a sua elocução.
Homens de talento e leitores fortes não são gênios, mas apenas
receptores privilegiados, e por assim serem, tais gênios
da apreciação operam numa via humanista em que a literatura cumpre
seu papel fundamental, qual seja, a de “ter utilidade para a vida, isto
é, contribuir para o processo de conscientização”. Conforme tal
definição, o gênio seria o agente de compensação das carências
pessoais do leitor, colaborando com ele na construção de sua autoconfiança.
O Eu aborígene, anteposto às
convenções que padronizam as personalidades, emerge no gênio como um Deus
interior. O gênio de um autor é sua insígnia, e como tal, é
pessoal e intransferível. Apesar de salientar o caráter demiurgo do gênio,
Bloom não desmente as expropriações necessárias empreendidas por um
autor genial em relação a um outro precedente na genealogia dos gênios.
Em verdade, o gênio inventor é aquele que “sabe tomar emprestado”. Neste último ponto podemos
contrapor dois modelos distintos de originalidade em Pound e Bloom. Este
define a originalidade através da representação dos gênios na história
literária, homens “nitidamente acima da era em que viveram”, capazes
do ato demiúrgico, da invenção e reelaboração de uma influência
advinda de um tronco genealógico-estético comum. É esta vinculação
inter-agente com precursores que concede ao autor a condição canônica,
o que nos permite deduzir o gênio como resultante de uma tradição dialética
a qual se auto-destrói reconstruindo-se. Pound, por sua vez, defende um
tipo similar de originalidade, fundado no imperativo artístico da invenção
que se locupleta da tradição. A renovação dos repertórios estéticos
hodiernos depende de uma apropriação presentificada das faturas
tradicionais, ou seja, a leitura dos clássicos será empreendida como uma
recusa da museologia estética. Para eleição do cânon poundiano basta
reconhecer, numa linha histórica de invenções progressivas, os autores
responsáveis pela formulação original de novos processos estéticos.
Tais processos, tornados clichês em tempo presente, são a “parte
viva” da poesia. Em verdade, o ponto divergente mais explícito destas
duas concepções canônicas reside no fato de que para Pound a literatura
não é obra de gênios, mas de artesãos. Reiterando um aforisma
poundiano de Mário Faustino, para o fabbro
“é preferível escrever num laboratório a escrever num templo”.
De forma antitética, Pound é um iconoclasta; Bloom, um devoto à religião
da literatura. Temos aí, contrapostos, o projeto de sacralização
neo-romântico bloomiano e o programa iconoclasta e neoclassicista do
velho Ez. Se a tradição de Bloom revolve à sacralização cabalística
do autor, Pound vincula-se ao materialismo poético que transforma a
literatura em saber prático, e por isso, trata-a de forma secular (em
sentido weberiano), demonstrando ao neófito as amplas possibilidades do
artifício poético. Eliot, evidenciando este aspecto artesanal das
oficinas poéticas poundianas, denominou o poeta Il
Miglior Fabbro, ou seja, O
Melhor Artífice. O materialismo de Pound advoga claramente um
programa positivo para a arte poética que deveria, para tanto,
espelhar-se no método biológico de estudo comparativo, lâmina a lâmina.
Apesar deste dissenso entre
materialismo pragmático e transcendentalismo gnóstico, a supervalorização
anglofílica em ambos é inconteste. A questão em aberto, neste ponto
específico, é saber: a serviço de qual projeto nacionalista erguem-se
estes dois monumentos canônicos? Se considerarmos a exclusão de Mallarmé
em ambos as proposições, teríamos um rastro para seguir até a plausível
justificação de tal projeto? Por que Whitman é tão venerado por Bloom
e parcialmente recusado por Pound, se ambos estão advogando
“tacitamente” um mesmo projeto vernacular?
A resposta a estas questões deve considerar, anteriormente, que há
uma diferença de escopo nas duas concepções canônicas. Embora ambas
sejam esforços humanistas que utilizam a literatura como instrumento de
afirmação ética — seja para o homem, seja para a comunidade política
— tais empresas definem o objeto canônico distintamente. Bloom arrola
autores da tradição filosófica, deixando-nos implícita uma proposta
nietzscheana que embaça as margens entre filosofia e literatura. Santo
Agostinho, Sócrates, Platão, Nietzsche, Kierkegaard, Freud e Montaigne,
entre outros, são arrolados como autores de um único gênero: a
literatura. Isto nos deixa a impressão de que o conceito de literatura
intrínseco a Bloom repousa quase integralmente sobre o caráter do gênio
e sua capacidade demiúrgica. Não interessam, neste caso, as exaustivas e
alfandegárias classificações de gênero do autor eleito uma vez que os
critérios avaliativos enfocam qualidades detectáveis em filósofos,
poetas, dramaturgos e até mesmo cientistas. Curiosamente, Bloom enfatiza
a exclusão de políticos e generais como um princípio de estesia de seu
projeto canônico. A ampliação do escopo canônico multiplica as indagações
do leitor forte em relação às escolhas de Bloom: por que não
Maquiavel, Kant, Vico, Hegel, Rabelais, Ponge, Diderot, Eurípedes, Hölderlin,
Catulo, Lautréamont, Laforgue, Góngora, Quevedo, Calderón de la Barca,
Pound, Rousseau? Creio que exclusões de tal envergadura denunciem a aversão
ao materialismo e a predileção anglofílica (cerca de 50% dos autores
canônicos eleitos são escritores de língua inglesa; os demais
dividem-se entre alemães (prussianos), italianos, portugueses,
argentinos, russos, franceses, romanos, hebreus, gregos, cubanos,
mexicanos, espanhóis, noruegueses, etc.). Ao contrário de Bloom, Pound
distingue de forma clara a poesia e a prosa ficcional como escopo e objeto
de sua eleição canônica. Embora nos seja nítido o viés anglofílico
de sua proposta, o fabbro
transformou ao longo de seu trajeto literário — sobretudo após a
condenação por traição à pátria pela justiça americana —, a
proposição vernacular em uma defesa deliberada da linguagem analógico-ideogrâmica.
Vislumbra-se na pedagogia poundiana pós-confuciana a proposição de um cânon
pan-poético de coleta universal. A antologia chinesa de Confúcio, O
Rubayi
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Daí, importa-nos duas outras
divergências entre Pound e Bloom. A este interessava o gênio autoral; a
Pound, a obra, e, em última instância, o texto específico, uma vez que
não há escritores infalíveis ou absolutamente regulares. Um poeta pode,
em um momento de excelência
inventiva (e não de genialidade), produzir um texto exemplar segundo
os fundamentos melopéicos, fanopéicos ou imagéticos, porém, pode,
outrossim, num momento posterior cometer erros grosseiros. Ao referir-se
ao livro Educação Sentimental de
Flaubert, por exemplo, Pound alerta ao leitor que a precisão descritiva
característica do autor mantém-se somente até a metade do livro; daí
em diante tem-se uma narrativa sem o esperado rigor, mantido, segundo o
julgamento do fabbro, em Madame
Bovary. Outra salutar divergência reside no reconhecimento poundiano
dos homens de ação em sua proposta canônica. A leitura do fenômeno político
era empreendida segundo um método que estetizava e mitificava lideranças
nacionais como Mussolini e Lênin. A política, entendida como uma arte da
liderança e da decisão, não poderia ser delegada ao populacho ignóbil,
incapaz de reconhecer falsos líderes e charlatões. Pound,
paradoxalmente, era um romântico na interpretação e prescrição do fenômeno
político, ao passo que um pragmático nas questões estéticas. Por isso,
seu Cânon (aqui sim, em sentido religioso) era povoado por homens de ação,
políticos (Malatesta, Mussolini), guerreiros (Ulisses), editores da boa
literatura e banqueiros benevolentes não-usurários. Tais figuras eram
representativas não de uma proposta literária propriamente, mas de uma
proposta ética, anti-usurocrática (leia-se anti-liberal) e anti-democrática.
Na defesa destes valores, cuja origem remonta a Dante e Confúcio, Pound não
hesitou em trair a própria pátria, representante-mor do liberalismo usurário
e dos valores democráticos. O nó da questão está no fato de que os
valores éticos da moral dantesca e confuciana deveriam necessariamente
povoar os conteúdos morais das obras do Paideuma, e neste ponto, política
e poesia admitiriam uma interseção fundamental para a vitalidade de
ambas. Não há res publica sem divulgação e ensino da boa poesia; não há excelência
poética sem virtude pública. Para ambos, Pound e Bloom,
portanto, a proposição de um cânon tem caráter normativo, não apenas
para a produção e reverência da boa-literatura, mas para a vida, do
indivíduo e da comunidade. [1]
Lycidas de Milton, segundo
Johnson é um poema cuja
“dicção é ríspida, os ritmos indecisos e as cadências desgradáveis”. [2]
Eliot, T.S. De Poesia e Poetas.
(1991), São Paulo, Editora Brasiliense. Cf. “Johnson como crítico
e poeta”. p.p. 216-257. Ranieri Ribas é sociólogo e cientista político, autor do livro de Poemas Os Cactos de Lakatus (Amálgama, Teresina, 2003). Textos anteriores Sermo Nobilis e narcisismo retórico na poesia de Elmar Carvalho - ago 04 Intertextualidade e arqueologia poética na obra de H. Dobal - mai 04 |
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